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A Gaiola

Um conto sobre um pássaro e um relacionamento abusivo

Autora: Letícia Cardoso

Quando você coloca um passarinho na gaiola, ele ainda canta. Pra quem caminha livremente pelo jardim, o canto até soa feliz, quem não tem asas não nota o lamento em cada pio.

Quem vê o passarinho cantando não percebe a dor do confinamento, seu canto subiria três tons se pudesse voar por ai. Pouco importa se comeria somente migalhas aqui e ali, preferia ser um pombo qualquer a um pássaro bonito, colorido e preso, resumido a um mascote sem sentido, uma peça para ser mostrada aos convidados, uma vitrola de penas, um toque especial ao ambiente.

Quando você coloca um passarinho na gaiola, ele ainda canta, o canto solitário e melancólico que só os de sua espécie compreendem. A falta de ser livre, de não ter ninguém que o chame de “meu”, nenhum ser vivo deveria ser obrigado a pertencer.

Quem caminha livremente pelo jardim comenta o quão bom seria passar o dia todo cantando sem compromissos, sem preocupações. O passarinho preferia sobrevoar em busca de sua caça, ou de umas pipocas de turistas aqui e ali, põe-se a cantar por não ter mais o que fazer, por ser obrigado a pertencer, por não conseguir destravar com o bico a trava da portinhola que o detém.

 

Se você colocar um passarinho na gaiola, ele ainda canta. Ele não permanece preso porque quer, são muitas grades que o contém de forma abusiva, não restando-lhe nenhuma rota de fuga.

Quem caminha livremente pelo jardim até desdenha “se ele quisesse fugir, daria um jeito quando abrissem a portinhola para por-lhe mais alpiste”, mas só o pássaro conhece as mãos violentas que o prendem de volta com truculência, ele já está cansado de tentar e acabar machucado.

Quando ele finalmente escapar, vai voar pra bem longe, não quer sequer ver quem caminha livremente pelo quintal, quem passa por ele todos os dias, com polegares opositores capazes de abrir a portinhola, mas sem estender-lhe a mão.

No dia que finalmente escapar, esse pássaro vai voar pra bem longe, nunca mais será visto pelos seus agressores, finalmente será feliz.

There are 2 comments

    1. http://nave.casa

      Oi Dani, tudo bom? Olha, essa é uma boa pergunta. No momento que estamos vivendo, encontramos por ai uma série de vagas abusivas, empresas se aproveitando do momento econômico para pagar o mínimo possível, oferecer estágios de 8 horas ou fazer exigências absurdas. Muitas vezes, por necessidades específicas como pagar o aluguel ou cumprir a carga horária de estágio obrigatório, diversas pessoas são obrigadas a se submeter a isso. Parece fácil pra quem vê de fora, né? Dizer “Pede as contas” ou “encontre um lugar melhor”, mas a situação por traz é, quase sempre, muito mais complexa. Usando um pássaro, uma gaiola e uma vizinhança, achamos que o texto trata do assunto, além de contemplar outras formas abusivas de relacionamentos interpessoais como casais, amigos, família. A forma com que cada um se identifica com o texto varia muito do repertório, mas nossa mensagem principal é que nunca vale a pena julgar ou culpar as pessoas e pássaros que estão vivendo determinadas situações.
      Encaramos o coworking como um jeito diferente de trabalhar, algo mais colaborativo e mais humano. Caminhando por aqui, você vai ouvir de nossos coworkers histórias sobre seus trabalhos anteriores, e nos cativa ver como aqui é diferente, como a independência profissional é diferente, sabe?
      Mas já avisamos que em algum momento, haverá textos que realmente não fazem paralelo algum com coworking ou trabalho. Acontece que nós abrimos espaço para que nossos coworkers e colaboradores contem histórias que, embora nem sempre estejam relacionadas às suas profissões, merecem ser ouvidas. No final, muito mais que um espaço para trabalhar, aqui é uma casa de compartilhar: histórias, vivências, criações.
      Se você passar por aqui um dia, vai ver que tem expressões de diversos tipos pra todo lado, e a gente gosta disso!
      Nos conte o que você gostaria de ler no blog da Nave, a gente se compromete a criar um conteúdo bem legal pensando em você.

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