, Uncategorized

Nave entrevista Camila Haddad

Camila Haddad é formada em administração, mestre em meio ambiente e desenvolvimento sustentável e dropout de um curso de publicidade. Atualmente, sente-se em processo de ‘descolarização’. Acontece que Camila está conhecendo na prática o poder da troca de aprendizado e experiências.
Após trabalhar por quatro anos com pesquisa aplicada a temas de consumo sustentável em instituições com FGV e IIED e dedicar sua pesquisa de mestrado ao movimento colaborativo, Camila passou a investigar e experimentar colaboração.
Em 2012 fundou a plataforma de crowdlearning Cinese, onde agora une dois de seus grandes interesses: educação e colaboração.

Camila embarca na Nave dia 25 de outubro para nos guiar em um bate-papo sobre Economia Colaborativa, e desde já começamos a puxar o assunto. Na conversa a seguir, ela fala sobre trabalho por paixão e propósito, os limites que a colaboração encontra em ambientes hierárquicos, as relações de gênero no trabalho e ainda nos dá dicas para tirar maior proveito do coletivo.

Alguns portais mencionam que você precisou de duas graduações e uma pós para entender o poder de aprender com pessoas e experiências. O que você acha deste movimento de pessoas migrando para áreas totalmente diferentes de sua formação?

Muitas vezes a escolha que fazemos na graduação – para quem tem a oportunidade de ter uma formação universitária – é mais pautada pelas possibilidades de emprego e carreira do que pelas nossos reais interesses e habilidades. Durante toda nossa educação somos guiados para esse tipo de escolha. mas hoje o cenário está muito diferente do que era há apenas uma geração e a ideia de estabilidade, um emprego para a vida, caiu. Tem algo de cruel nisso e que é imposição de um modelo capitalista “pós-moderno”: podemos perder nossos cargos a qualquer momento, não temos mais vínculos de trabalho sólidos, então precisamos estar sempre atualizados e sermos profissionais com as habilidades que “o mercado quer”. Por outro lado, a inexistência de uma solidez/estabilidade traz a tona a possibilidade de buscarmos trabalhar com coisas que nos satisfazem e inclusive de mudarmos essa “coisa” ao longo do tempo. É o boom do trabalho por paixão ou por propósito. Esse assunto pode ser explorado de diversos ângulos, mas o que eu acho interessante é que – aqui tratando de um grupo mais privilegiado de pessoas – a formação inicial tem engessado cada vez menos a nossa prática profissional. Temos percebido inclusive que formação é algo contínuo e que tudo que fizemos vai se tornando ingrediente, ferramenta, bagagem para a nossa prática atual, ainda que eu tenha me formado advogada e seja artista plástica.

Você acredita que o mercado está se tornando mais flexível com relação às formações de seus funcionários? Dividir expertises e descobrir o novo em colaboração é algo que o mercado já entende?

Acho difícil falarmos da entidade mercado como algo uniforme, mas existe sim uma tendência de se olhar cada vez menos para a formação, especialmente quando falamos de cargos gerenciais em empresas que de alguma forma valorizem criatividade e inovação. Para o meu contratante – mas acho que é ou deveria ser assim em tudo na vida – vale mais o que eu fiz, criei, executei, quais as minhas referências e reputação do que um acumulado de diplomas.

Sobre a colaboração, paradoxalmente, acho que sim e não. No mundo do trabalho a colaboração é valorizada pontualmente porque é só a partir dela que conseguimos inovar, nos encontrarmos com a diversidade e gerar resultados mais eficazes (ao invés de apenas eficientes). Mas ela vai até um limite porque ambientes hierárquicos (como são 99.9% das organizações) são desenhados para gerar competição porque o único caminho é o topo e lá não há espaço para todos. No fim do dia meu colega de trabalho compete comigo por uma promoção: um vacilo meu é uma oportunidade para ele e vice-versa.

Na sua opinião, qual foi o projeto colaborativo mais revolucionário para o mundo nos últimos anos? E qual projeto foi mais revolucionário na sua própria vida/rotina?

Nossa que difícil eleger um. O movimento pacífico de independência da Índia, o movimento de conquista dos direitos civis nos EUA, a primavera árabe, os movimentos Occupy. A própria Internet, os softwares livres em si e mais recentemente o Blockchain e tudo que tem nascido a partir dele. Na minha vida particularmente a experiência da casa colaborativa Laboriosa 89, na Vila Madalena, em São Paulo. Em resumo era uma casa com vários ambientes onde era possível trabalhar, cozinhar, conversar, realizar eventos, cursos, oficinas etc. O revolucionário é que ela estava disponível para literalmente qualquer pessoa usar. Todo mundo podia fazer uma cópia da chave e as contribuições financeiras para manutenção da casa eram voluntárias e espontâneas. Ver e viver a casa mudaram muito da minha concepção do que é empreender e, principalmente, do que é sucesso e isso teve muito impacto nos rumos do Cinese.

Recentemente uma matéria divulgou a história de um homem e uma mulher, colegas de trabalho, que trocaram endereços de e-mail para analisar a postura de trabalho entre gêneros. A mulher alegou que foi muito mais fácil se fazer ouvir usando o nome do colega, e o homem percebeu que seu trabalho se tornou inviável usando o nome dela. Nos ambientes pelos quais você passou, a relação de colaboratividade entre homens e mulheres foi/é saudável? Os homens, em geral, aceitam crescer em colaboração com mulheres?

Locais mais horizontais e menos hierárquicos – portanto mais colaborativos – abrigam relações de gênero mais saudáveis, sem dúvida, mas é impossível neutralizamos as desigualdades que são socialmente construídas e estão impregnadas em todos nós. O que pode existir nesses ambientes é uma percepção mais aguçada e a liberdade de falarmos sobre as opressões. Me lembro de participar de uma conversa em roda sobre um determinado tema e em algum momento uma participante nos chamou à atenção de que até então os homens tinham dominado quase todo tempo de fala. A diferença desse ambiente, nesse caso, foi que ela se sentiu segura de fazer essa colocação.

O nome Cinese significa movimento, perturbar, empurrar, excitar. Houve algum momento marcante que criou esse movimento da sua carreira? Você tem em mente um acontecimento ou instante que a fez perceber que a experiência podia ser tão ou mais enriquecedora do que um diploma?

Acho que não houve um momento em específico mas um conjunto de momentos e experiências. Durante o meu mestrado isso foi ficando mais claro porque foram as coisas que eu vivi, as pessoas e projetos que conheci que determinaram a minha pesquisa e que de fato constituíram meu aprendizado. Eu comecei a me aprofundar no tema colaboração, inclusive, porque fui encontrando coisas como hortas comunitárias, bibliotecas ao ar livre, bancos de tempo, associações de vizinhança que me apontaram a direção de uma nova prática econômica e de organização social. Outro momento importante foi em 2014 quando o Cinese teve como “sede” a casa colaborativa Laboriosa89 que foi um experimento radical de não-hierarquia e nos ensinou muito.

Um coworking, em teoria, é um local para se trabalhar junto e compartilhar expertises e contatos, muito além do espaço. Na prática, na maioria dos lugares, sabemos que não é bem isso que acontece. O que você diria para convencer nossos coworkers a aproveitarem a casa dentro do real conceito de coworking?

É sempre possível fazermos mais do mesmo achando que é algo diferente. Dentro da lógica tradicional, um coworking faz sentido porque tem um custo menor do que de um escritório, e é mais prático na medida em que dispõe de serviços com os quais eu não precisaria me preocupar (recepção, impressão, café, etc). Se é isso que eu busco no espaço de trabalho compartilhado, é isso que eu vou encontrar. É difícil abrir espaço para a riqueza da diversidade e do inesperado se estamos imersos nas necessidades do nosso próprio trampo, empresa, etc. Só o tempo ocioso e dedicado a livre interação que permite o ganho subjetivo – e para mim o mais relevante – de um coworking. Mas aí temos que sair da lógica tradicional e isso depende muito do padrão de organização, porque nosso comportamento é função direta desse padrão. Mais horizontalidade = mais colaboração. Quanto mais as pessoas puderem se apropriar do espaço, mais provável é que o potencial das interações e trocas seja explorado e, consequentemente, o coletivo e os indivíduos que dele fazem parte, aprendam e cresçam juntos.

Artigos, referências e inicitaivas:

Um livro interessante que problematiza o movimento é o Cooperativismo de Plataforma.
Também gosto bastante desse doc/entrevista, mas ele não é diretamente sobre economia colaborativa, mas sobre gift economy.

Publique Seus Pensamentos

Fechar

Quero uma volta na Nave

Quer conhecer nosso espaço? Visitar nossa nave? Preencha o formulário de abdução e nossa torre de comando entrará em contato.