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Colagem

Na primeira aula do curso de colagem, o professor falava sobre a abrangência do conceito. Colagem, dizia ele, não se resume a papel, tesoura e cola. Colagem pode significar juntar diferentes partes, criando para elas um novo contexto, de forma que o todo se torne maior, ou mais interessante, que a mera soma das partes.

Qualquer todo é composto por uma infinidade de partes menores e indispensáveis. Textos são colagens de parágrafos, de palavras, que são colagens de prefixos, radicais, sufixos, sílabas, fonemas, letras.

Músicas são colagens de acordes, notas, harmonias, melodias, ritmo. Ou de versos, solos e refrões.

Talvez cada um de nós também seja, à sua maneira peculiar, uma colagem.

Uma complexa colagem de átomos, moléculas, que formam uma infinidade de células, que se arranjam em diferentes tipos de tecidos e órgãos. Do cérebro ao coração, passando por cada osso, cada centímetro quadrado de pele, pelo brilho colorido dos olhos.

Também somos colagens de emoções, afetos, pensamentos, medos, memórias, ideias, convicções e expectativas. Nenhum recorte é idêntico ao outro.

Irônico é perceber que, mesmo que cada um de nós seja tão plural, composto por tantas peças diferentes, às vezes nos sentimos profundamente solitários. Inclusive no trabalho.

Trabalhar sozinho tornou-se comum. Reduz custos e deslocamentos, economiza tempo, otimiza processos. Não é raro o profissional que trabalha em casa, no quarto, diante de um computador pessoal. Aquele que pode trabalhar de chinelo e pijamas, e que não passa quinze horas por semana dentro do ônibus, entre outras vantagens.

Mas chega uma hora em que a solidão pesa, e buscar alternativas à rotina de isolamento pode ser uma boa estratégia. Entram em cena os cafés, os espaços de trabalho coletivo, as praças, ou a casa de um bom amigo.

Felizmente, muito de nosso trabalho se tornou portátil, o que nos dá a possibilidade de trabalhar de lugares diferentes.

É verdade que muitas das melhores ideias surgem na caverna, durante o banho, no retiro espiritual. Mas há ideias que só nascerão dos encontros, das colisões, dos atritos, das trocas com outras colagens que se pareçam conosco, ou que se diferenciem de nós. Uma conversa legal em um novo ambiente pode ser a peça que faltava para solucionar aquele trabalho que empacou.

Um pouco de companhia pode ser o estímulo que faltava para resolver aquele dilema. Mesmo que seja só para dividir as frustrações, colocar as coisas em perspectiva, perceber que a grama do vizinho nem sempre é tão mais verde, ou para repetir o atemporal mantra “não tá fácil pra ninguém”.

Se sentir parte de uma colagem maior.

Se permitir dar o primeiro passo para fora de casa, ir ao encontro de pessoas e lugares, se colocar diante da imprevisibilidade que só o outro pode oferecer, pode ser uma ótima opção para recuperar um pouco da motivação perdida, e romper com a estagnação.

A estagnação, aliás, não dura para sempre, mas ela não acaba por si mesma. Encontrei esta frase dentro do biscoito da sorte, do restaurante chinês. Devo tê-la recortado, e colado em um dos cadernos por aqui.

Autor: Eduardo Nunes

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